19/4/2019
Portugal Manual entrevista Carla de Oliveira Afonso
Filipa Belo

Carla, fundadora da COA, acrónimo de Carla de Oliveira Afonso.

O seu projecto, embora recente, desde logo nos despertou interesse pela componente original e artística que a Carla leva às suas peças. Fomos conversar com fundadora da COA para conhecer melhor o seu percurso e conhecer de perto a técnica de enchimento que utiliza em alguns dos seus trabalhos.

PM - Carla, quais são as tuas primeiras memórias relacionadas com os trabalhos manuais?

Carla - Desde pequena que tenho interesse em todo o tipo de trabalhos manuais. Na altura experimentava fazer coisas com todos os materiais que me eram disponíveis, pelo toque, pela oportunidade de expressar qualquer coisa quem nem pensava ou entendia; talvez pelo poder de tornar real algo que só existe em cada um de nós.

PM - Conta-nos um pouco do teu percurso até chegarmos à COA?

Carla - Na licenciatura com o curso de Escultura tive um contacto mais profundo e, na altura incompreendido, dos elementos por trás de uma materialização. Experimentei trabalhar em pedra, madeira, mosaico e a cerâmica que me acompanhou até hoje.
Um ano após a conclusão do curso, colaborei num atelier de cerâmica que me permitiu desenvolver processos importantes no alcance de objetivos e metodologias de trabalho.

PM - E começaste logo a trabalhar ou tiveste um período mais experimental?

Nos dois anos seguintes qualquer projeto artístico individual foi abandonado até ao momento em que senti um vazio quase incomportável, o que despoletou um novo e enorme desejo de exploração de mim mesma enquanto artista.


Decidi dedicar um ano totalmente à cerâmica sendo a matéria que melhor dominava. Foi decerto a rampa de lançamento para a compreensão não só de domínios técnicos, como para o alcance da maturidade conceptual.

Desde então, tenho desenvolvido projetos assentes em conceitos, investigando assuntos factuais ou invisíveis que ganham a sua tridimensionalidade essencialmente em cerâmica, sendo a tendência juntar outros materiais, como madeiras, metais, vidro e desperdícios industriais.

PM - Que técnicas utilizas no teu trabalho?

Não opto por nenhuma técnica em específico, aliás, o meu objetivo durante todos estes anos foi desenvolver o máximo de conhecimentos relacionados com a cerâmica. Sempre tive facilidade em dominar as novas técnicas, o que me permite executar peças em técnicas mais manuais ou mais “industriais”; desde o rolo, lastra, escultura em adição ou subtração, roda de oleiro, pinching, peças por enchimento, entre outras.

PM - Fala-nos um pouco mais sobre o processo de conformação de peças por enchimento de moldes que utilizas em algumas das tuas criações.


Carla -  Para a técnica de enchimento é necessário um molde de gesso para a conformação da peça que pretendemos. O gesso absorve a humidade do barro líquido, ou do barro “plástico”, que depositamos ou calcamos.

Essa primeira absorção acontece na superfície da matéria que se encontra em contacto com o gesso, e na maior parte das vezes como se trata de barro líquido (barbotina), dependendo da espessura que queremos, deixamos mais, ou menos tempo o barro líquido dentro do molde.

Quando vertemos o molde, obtemos a peça oca, porque as partículas da barbotina que perderam humidade contraíram e ficaram agarradas às paredes do molde.

Na desmoldagem o barro perde um pouco mais de humidade e contrai de forma a soltar-se.


O passo seguinte é retirar cuidadosamente a peça do molde deixando secar até ao estado de couro onde podemos começar os acabamentos, que vão desde a remoção de costuras até à fase de aperfeiçoamento com o auxílio de uma esponja.

Já sem defeitos, deixamos secar a peça totalmente para uma primeira cozedura que atinge temperaturas variáveis, mas que rondam os 800ºC a 1000ºC.
Depois de sair do forno, prosseguem os desenhos, manchas e grafismos, utilizo tinta de água própria para cerâmica, seguindo a vidragem.

Os vidrados são compostos por substâncias que formam um líquido que a peça absorve, funciona como uma pelicula de pó, sendo que logo que aplicado a secagem é praticamente instantânea. Existem várias técnicas, como o mergulho, a pincel, spray, entre outras; cada peça é uma peça e tem as suas particularidades.

Para finalizar, uma segunda cozedura, que dependendo das características da barbotina utilizada, varia as temperaturas. Habitualmente trabalho com grés e a temperatura pode ir até cerca de 1250º, oferecendo assim maior resistência em utilização.

Conheçam mais do trabalho da COA aqui

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